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( #59)





















2005


Um dia, alguém me pôs os phones nos ouvidos e me fez subir ao telhado para ficar sentada e quieta a contemplar um raga. Ali, com ele lá em baixo, movendo-se na luz, eu fiquei sozinha, sentindo o vento no rosto, de olhos fechados. De vez em quando abria-os, para me certificar de que era verdade - eu estava mesmo ali, sentada numa chaminé e dali podia ver toda a cidade. Tinha um amigo que contava com os meus braços para curar o coração, ainda que pouco nos abraçássemos - estávamos ligados. Abri os olhos quando me tocou com muito cuidado para me oferecer um chá quente e voltou a descer, desaparecendo na luz lá em baixo. E eu, como sempre, gostando de mim só, de alguma forma sempre ausente, sempre por dentro de mim. Um grandioso mundo de gratidão retumbava no meu peito.
Hoje, ao retornar a casa, vieram comigo muitas memórias. De luzes diferentes, de sombras, de vozes. De tantas coisas que se me apresentaram e me fizeram eu. Cheguei ao telhado e vejo que estou novamente (mas agora sim) só, os phones nos meus ouvidos tocam agora esta música, que me dá muita vontade de dançar. O meu corpo começa a saltar languidamente e abro um sorriso. E levo com o vento no rosto, sinto os meus caracóis nas pálpebras fechadas, sinto como eles se movem no ar quando giro a cabeça, sorrio, danço. Este telhado é meu, posso fazer o que quiser. Que céu se expande à minha frente, que paisagem linda se mostra para mim. Esta música mexe nas cordas do meu corpo e faz-me sentir que não é coincidência, é dança (no telhado, apesar de tudo). E talvez, talvez mais tarde eu entrarei na casa e sentirei a sua presença, movendo-se na luz. Beberemos o chá sem ser preciso dizer nada. Dançaremos, sempre.
Eu sei quem sou. Eu sou só eu. E eu também sou mais eu, quando sou assim. E um dia, eu vou deixar de ser eu e passarei a ser a dança, sem atributos. Não mais fingirei aguentar tudo, eu não aguento tudo. Compreenderei melhor os outros, porque tudo é possível. E todos merecem os meus braços. Inclusivé eu.
:)

Love,


Trabalho sobre foto original de Carla Ferraz.
[Utilize o menu da direita para consultar os trabalhos]

Maria

2005


"E a sua infância fugiu, de bracitos no ar"

2005



Histericall Sleep / Sleeping Beauty

2005






















"She has not stoped sleeping, in her fashion, of course, night and day, without ever waking, and there is good reason to think that she will not wake up any time soon.
We watch without anxiety or emotion this singular spectacle, with which we have long been familiar, living with the well-formulated conviction that one fine day, sooner or later, order will spontaneously be restored."




Photomatons

2005



“Crescendo na nossa própria civilização sabemos pouco como é que nós próprios somos condicionados por ela, como é que os nossos corpos, a nossa linguagem, os nossos modos de pensar, de agir e de sentir são determinados por limites que nos são impostos pelo nosso contexto.”
“ O conhecimento dos processos de viver e dos comportamentos do Homem sob condições de vida fundamentalmente diferentes das nossas podem ajudar-nos a obter uma visão mais livre das nossas próprias vidas e dos nossos problemas”. Franz Boas



































Identidade Pessoal - Exercício

2005





















Texto da esquerda:


A criança, quando criança,

não sabia que era criança,

tudo para ela tinha alma e

todas as almas eram uma só.


A criança, quando criança,

não tinha opinião sobre nada,

não tinha hábitos,

sentava-se de pernas cruzadas,

de repente desatava a correr,

tinha um remoinho no cabelo

e não fazia careta quando era fotografada.


A criança, quando criança,

fazia perguntas como estas:

Porque é que eu sou eu e não tu?



Texto da direita:


A criança, quando criança,

detestava espinafres,

ervilhas, arroz-doce e

couve-flor estufada.

Agora come tudo isso

e não só por necessidade.


A criança, quando criança,

acordou uma vez numa cama desconhecida

e agora acorda constantemente.


A criança, quando criança,

bastava alimentar-se de maçãs e pão.

E assim continua a ser.

As nozes frescas punham-lhe a língua áspera.

E continuam a pôr.


(Win Wenders, in As Asas do Desejo)