Desculpem, mas estou viciada neste livro.
























Paris, 2009



"Aconteceram-me tantas coisas internamente nesse momento. Parecia quase destinado. Cada dia torno-me mais e mais egocêntrico. Será isto fraqueza? Estou a enlouquecer? Gostas destas últimas páginas? Tudo isto é terrivelmente importante. Sim, vem cá jantar amanhã. Vem e fica. Lava a loiça. Vê a alvorada aparecer. Nunca mais voltes. Não quero saber se o Hugo vê isto ou não. Não me importo. Amo-te e era isso que te queria dizer ao telefone. Era isso que eu queria escrever. Tudo o que dizes é tão verdade e eu sinto-o ainda mais que tu. Mas sem os pré-requisitos. És ainda uma hipócrita... Muito, muito pequenina, mas uma hipócrita. Amo-te. Deixa o Hugo ler isto. Deixa as coisas explodirem. Amo-te. Ligo-te amanhã de manhã."

Henry Miller


Madrugada


"Sei agora que os teus olhos estão bem abertos. Há certas coisas em que nunca acreditarás outra vez, certos gestos nunca repetirás, certas dores, suspeitas, nunca mais sentirás. Uma espécie de fervor criminoso e branco na tua ternura e crueldade. Nem remorso, nem vingança; nem dor nem culpa. Um viver tudo, sem algo que te salve do abismo, a não ser uma esperança maior, uma fé, uma alegria que provaste, que podes repetir à vontade."
Henry Miller

"Vida tão estranha"



















São de veludo as palavras
Daquele que finge que ama
Ao desengano levo a vida
A sorte a mim já não me chama


Vida tão só
Vida tão estranha
Meu coração, tão maltratado
Já nem chorar, me traz consolo
Resta-me só um triste fado


A gente vive na mentira
Já não dá conta do que sente
Antes sózinha toda a vida
Que ter um coração que mente


Rodrigo Leão


Souvenir


"Sempre que me perguntares «se eu me lembro», lembra-te de que me lembro de tudo. Sou uma esponja."
(Henry Miller)

Bonsoir, rêverie



































Já percebi. Não posso morar aqui. Paris não foi feita para se viver aqui sempre. Ela é feita para se ser estrangulado com a sua tamanha beleza. Os reflexos das luzes no chão molhado. O vento frio. As descobertas inesperadas em qualquer rua de prédios tortos. Olhares que se cruzam com intensidade.

Paris é ainda mais linda no Inverno. A vida da cidade é completamente diferente, parece outra cidade. Está no ar uma energia de qualquer coisa prestes a acontecer. As pessoas são cheias, vemos as ideias à roda nas suas cabeças.

As cores do céu escuro e das folhas vermelhas.

O som de uma porta que abre do quente para o frio ou do frio para o quente, os cheiros que se misturam.

Acumulação de souvenirs internos, construídos uns sobre os outros, o próprio momento de recordação de um outro momento pode ser belo.

Se fico mais um bocadinho tenho medo de ficar sem ar.

Do Porto para Paris


Foto: Unidade Cinco de Outubro
Fim-de-semana cheio, cheíssimo, rápido.
Muitas emoções, muitas coisas a aprender.
Da Gala DeRose 09 vôo para o Euro-Yôga 09.
Paris... à demain!
:)

(#24)

"Henry,

Coisas que me esqueci de te dizer: a quena é um instrumento parecido com uma flauta que é usado pelos índios sul-americanos. É feita de ossos humanos. Deve a sua origem à adoração de um índio pela sua amante. Quando ela morreu, ele fez uma flauta de um dos seus ossos. Tem um som mais penetrante, mais assombroso do que o da flauta normal.

Que te amo e que, quando acordo de manhã, uso a minha inteligência para descobrir mais maneiras de te apreciar.

Que, quando a June voltar, ela vai amar-te mais porque eu te amei. Há novas folhas na ponta e no clímax da tua já muito rica cabeça.

Que te amo.

Que te amo.

Que te amo.

Tornei-me numa idiota como a Gertrude Stein. Isto é o que o amor faz às mulheres inteligentes. Não conseguem escrever mais cartas.

Anais."

(#23) Não consigo deixar de ler este poema

Receita de Mulher


As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul como na República Popular Chinesa
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflicta e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um rosto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhem com uma certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca húmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que os seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas
Sobretudo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal.
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário
É aconselhável na axila uma doce relva com um aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1º grau. Os olhos que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder a sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
A sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efémero e eu sua incalculável imperfeição.
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.



Vinicius de Moraes
"O operário em construção"

Parabéns à Trama II


É com muito orgulho que faço parte deste mundo.
Beijos e parabéns aos livreiros que se dão por inteiro a estra trama.

(#22)




Querida. Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei: vou-te escrever. Mas não te quero amar no tempo em que te lembro. Quero-te amar antes, muito antes. É quando o que é grande acontece. E não me digas diz lá porquê. Não sei. O que é grande acontece no eterno e o amor é assim, devias saber. Ama-se como se tem uma iluminação, deves ter ouvido. Ou se bate forte com a cabeça. Pelo menos comigo foi assim. Ou como quando se dá uma conjunção de astros no infinito, deve vir nos livros. Ou mais provavelmente esse tempo nunca pôde existir, que é quando realmente existe o que vale a pena existir.


Vergílio Ferreira, "Em nome da Terra", Bertrand Editora, 1990

Texto roubadinho do blog da Trama.

Kiss me, oh kiss me







Fotografia: Paulo Urbano de Carvalho, 2009

Este mês, Chiado, Porto, Paris!...


BD parte II




















Após muito tempo de espera, as crianças acabaram por ficar a brincar e quem foi pedir os autógrafos foram mesmo as adultas... Cheias de gibis e bonecos... hmmm... não sei afinal que idade tinha quem.





















Este senhor foi o máximo, muito simpático e bem disposto, ficou 2 horas a dar autógrafos com um sorriso e a desenhar bonequinhos!
E nós todas contentes, até foi esquisito ver o Maurício de Sousa, só o tinha visto quando ele se desenhava a ele próprio! Pelos vistos, o encantamento continua, o filho da minha prima aprendeu a ler sozinho com os gibis da Turma da Mônica.
Ele gostou muito dos nossos bonecos, perguntou onde os tínhamos comprado porque já não se fazem.


























E agora um deles tem um segredo, hihihihihi:

La fête


Ouvre tes portes
reçois la vie chez toi
gonfle ton coeur de joie
il faut toucher les choses
bois ton vin
sens tes roses
suis les mots du poète
prends la vie, fais la fête
Ao contário do último concerto que vi do Rodrigo Leão, no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, num Inverno bem frio, o Coliseu esta sexta estava a derreter de calor.
É difícil escrever o que sinto ao ouvir a sua música. E ao vivo ainda mais. Para além de me transportar a momentos muito bonitos e muito marcantes da minha vida, estas músicas são plenas, são cheias, são grávidas de sentimento e beleza. Eu acho que ele não precisava de fazer mais nenhuma música até ao fim da vida, que estas já são imortais e incansáveis.
Mais maravilhoso ainda, tem músicas em latim, português, francês, inglês, espanhol e neste último álbum até em russo. Tem convidados internacionais e bem queridos do público. Tem músicos exímios e tem uma cantora com uma voz fabulosa (a Ana Vieira)!
E sobretudo, ao vê-los em palco, há uma coisa que não muda ao longo dos tempos:
ele continua tímido e humilde; os músicos continuam a olhar para ele com admiração, como se ele fosse um Mestre; continuam também o tempo todo a tocar e a rir, a olhar uns para os outros felizes por estar ali; e no fim, continuam a abraçar-se e ele faz festinhas e dá beijinhos de apoio e gratidão aos músicos.
É incrível, vê-se que são pessoas felizes e têm um prazer imenso em estar ali.
São um exemplo que podemos transportar para muitas situações na nossa vida.
Tenho um orgulho enorme em Portugal, porque Portugal faz coisas destas! É dos melhores músicos que conheço e há que falar do que se faz de bom, em vez de só reclamar do nosso país. Na verdade, todos deviam ter a oportunidade de viajar só para constatar que se calhar Portugal é muito melhor em muitos aspectos.
Aqui fica a fantástica Passión, no Claustro do Mosteiro dos Jerónimos (que ambiente!), que levou a plateia ao rubro.