
Desculpem, mas estou viciada neste livro.
Paris, 2009
"Aconteceram-me tantas coisas internamente nesse momento. Parecia quase destinado. Cada dia torno-me mais e mais egocêntrico. Será isto fraqueza? Estou a enlouquecer? Gostas destas últimas páginas? Tudo isto é terrivelmente importante. Sim, vem cá jantar amanhã. Vem e fica. Lava a loiça. Vê a alvorada aparecer. Nunca mais voltes. Não quero saber se o Hugo vê isto ou não. Não me importo. Amo-te e era isso que te queria dizer ao telefone. Era isso que eu queria escrever. Tudo o que dizes é tão verdade e eu sinto-o ainda mais que tu. Mas sem os pré-requisitos. És ainda uma hipócrita... Muito, muito pequenina, mas uma hipócrita. Amo-te. Deixa o Hugo ler isto. Deixa as coisas explodirem. Amo-te. Ligo-te amanhã de manhã."
Henry Miller
Madrugada
"Vida tão estranha"
Souvenir
Bonsoir, rêverie
Do Porto para Paris
(#24)
"Henry,
Coisas que me esqueci de te dizer: a quena é um instrumento parecido com uma flauta que é usado pelos índios sul-americanos. É feita de ossos humanos. Deve a sua origem à adoração de um índio pela sua amante. Quando ela morreu, ele fez uma flauta de um dos seus ossos. Tem um som mais penetrante, mais assombroso do que o da flauta normal.
Que te amo e que, quando acordo de manhã, uso a minha inteligência para descobrir mais maneiras de te apreciar.
Que, quando a June voltar, ela vai amar-te mais porque eu te amei. Há novas folhas na ponta e no clímax da tua já muito rica cabeça.
Que te amo.
Que te amo.
Que te amo.
Tornei-me numa idiota como a Gertrude Stein. Isto é o que o amor faz às mulheres inteligentes. Não conseguem escrever mais cartas.
Anais."
(#23) Não consigo deixar de ler este poema
As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul como na República Popular Chinesa
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflicta e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um rosto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhem com uma certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca húmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que os seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas
Sobretudo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal.
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário
É aconselhável na axila uma doce relva com um aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1º grau. Os olhos que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder a sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
A sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efémero e eu sua incalculável imperfeição.
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Vinicius de Moraes
"O operário em construção"
Parabéns à Trama II
(#22)

BD parte II
Após muito tempo de espera, as crianças acabaram por ficar a brincar e quem foi pedir os autógrafos foram mesmo as adultas... Cheias de gibis e bonecos... hmmm... não sei afinal que idade tinha quem.
Este senhor foi o máximo, muito simpático e bem disposto, ficou 2 horas a dar autógrafos com um sorriso e a desenhar bonequinhos!
E nós todas contentes, até foi esquisito ver o Maurício de Sousa, só o tinha visto quando ele se desenhava a ele próprio! Pelos vistos, o encantamento continua, o filho da minha prima aprendeu a ler sozinho com os gibis da Turma da Mônica.
Ele gostou muito dos nossos bonecos, perguntou onde os tínhamos comprado porque já não se fazem.
E agora um deles tem um segredo, hihihihihi:



